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Sindicalista, "Chininha" tinha total confiança de Lula

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14/09/2013 | 03h00 | www1.folha.uol.com.br

RICARDO MENDONÇA
DE SÃO PAULO

No primeiro capítulo do livro de memórias que publicou após deixar o governo Lula, o ex-ministro Antônio Palocci conta que foi Luiz Gushiken quem o procurou em outubro de 2002 para dizer, pela primeira vez, que o petista recém-eleito presidente da República cogitava nomeá-lo para o Ministério da Fazenda.

No segundo capítulo, Palocci lembra que, ainda na campanha, era Gushiken o maior entusiasta da famosa "Carta ao povo brasileiro", documento em que Lula se comprometeria com a responsabilidade fiscal e outros temas caros ao mercado. No início, Lula parecia incomodado com os termos da carta, diz. A negociação com "o chefe" só fluiu quando "Chininha" entrou na conversa.

Os dois episódios dão dimensão do grau de confiança que Lula depositava em Gushiken, coordenador de suas campanhas em 1989, 1998 e 2002, membro do chamado "núcleo duro" de seu primeiro mandato e ministro da Secretaria de Comunicação até 2005, quando foi rebaixado de posto por ter sido acusado de ligação com o mensalão.

Luiz Gushiken

A citação do nome de Gushiken no rumoroso escândalo talvez tenha sido o enfrentamento mais difícil de sua trajetória política.

Em 2005, durante uma CPI, Gushiken foi acusado pelo ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato de ter ordenado o repasse de recursos de um fundo do qual o banco participava para as agências de publicidade do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, principal operador do mensalão.

Quando foi acusado, Gushiken já enfrentava disputas difíceis. No governo, era identificado como aliado dos fundos de pensão na bilionária briga contra o banco Opportunity, de Daniel Dantas, pelo controle de empresas de telefonia.

A disputa também rendeu uma CPI, investigações por parte da Polícia Federal e até denúncia de espionagem de e-mails por parte da Kroll, empresa estrangeira especializada em investigação. Gushiken, no caso, era o espionado.

Pizzolato disse mais tarde que se confundira, mas seu depoimento foi mesmo assim a base da acusação contra Gushiken no processo do mensalão, em abril de 2006.

O petista não aguentou a pressão e acabou saindo do governo no fim daquele ano, logo após a reeleição de Lula. No pedido de demissão do NAE (Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência) afirmou que a onda de acusações desencadeada a partir do mensalão havia se transformado em "prova de culpa".

"Os aspectos deletérios daquela crise [mensalão] também não podem ser esquecidos. Na voragem das denúncias abalou-se um dos pilares do Estado de Direito, o da presunção de inocência, uma vez que a mera acusação foi transformada no equivalente à prova de culpa", disse.

A inocência de Gushiken só foi confirmada em 2012, no julgamento pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Sua absolvição por falta de provas foi pedida pelo próprio Ministério Público que, anos antes, havia citado seu nome entre 40 acusados mesmo após a retratação do acusador.

Nem os petistas mais próximos dizem entender o porquê da acusação inicial de Pizzolato, antes tido como seu amigo. O ex-dirigente do BB foi condenado e hoje recorre contra a sentença.

MILITÂNCIA

Luiz Gushiken nasceu no pequeno município de Osvaldo Cruz, oeste paulista, em 8 de maio de 1950. A família modesta era oriunda de Okinawa, no Japão. O pai era comerciante; a mãe, dona de casa.

Em 1970, já em São Paulo, ele tornou-se escriturário do Banco do Estado de São Paulo, o Banespa, três décadas depois privatizado para o Santander. Com pouco mais de 20 anos, atuando como cipeiro numa agência do Brás, no centro, passou a ser visto como referência pelos colegas.

Num depoimento ao Sindicato dos Bancários de São Paulo --presidido por ele em 1985 e 86-- afirmou que começou a militar por influência de uma prima que estudava ciências sociais. "[Ela] tinha acesso a livros proibidos pela ditadura, como o Manifesto do Partido Comunista. Lia tudo com muito interesse", disse.

Naquele período, Gushiken associou-se à corrente Libelu (Liberdade e Luta), braço estudantil da OSI (Organização Socialista Internacionalista), de viés trotskista. É o mesmo grupo do qual fizeram parte Palocci e Luiz Favre, ex-marido da ministra Marta Suplicy.

Em 1978, enquanto cursava administração na Fundação Getulio Vargas, tornou-se representante dos bancários no Banespa. Foi nesse período que conheceu e começou a ganhar a confiança do sindicalista Lula, líder dos metalúrgicos no ABC paulista.

No sindicalismo de esquerda que crescia sob o impacto das greves em São Bernardo, a marca registrada do "peão" Gushiken era fazer campanha salarial de terno e gravata, algo inusual para aquela geração. Ele dizia que precisava ser assim porque também tinha que lidar com os gerentes das agências.

O evento mais marcante durante seu período na entidade foi a histórica greve de 1985, uma paralisação de três dias seguida por 700 mil bancários em todo o país, a primeira grande manifestação após a campanha das Diretas.

Gushiken até hoje é lembrado entre os colegas por ter tomado uma iniciativa até então inédita e arriscada na organização daquela greve. Dias antes, ele foi à sede do 2º Exército, à Polícia Federal e a outros órgãos para avisar sobre o protesto e pedir garantias de que não haveria repressão.

"Ele ia lá e dizia que a greve era contra os banqueiros, não contra o governo", diz o deputado Ricardo Berzoini (PT-SP), da base do sindicato na época. "Essas visitas foram muito noticiadas e acabaram dando segurança para quem queria aderir. No fim, serviram até de propaganda para a greve."

Paralelamente à atuação sindical, Gushiken participou da fundação do PT, em 1980, ajudando, entre outras coisas, na elaboração do estatuto da sigla --nove anos depois, entre 1989 e 1991, ele se tornaria presidente da legenda.

A intensificação de suas atividades no PT o obrigou a se afastar do sindicato. A mudança definitiva foi no fim de 1986, quando, eleito deputado federal para o primeiro de seus três mandatos seguidos, deixou a presidência da entidade.

Membro da pequena bancada petista de 10 parlamentares na Constituinte (hoje a sigla tem 88 deputados e 12 senadores), Gushiken atuou como titular da subcomissão do sistema financeiro, parte do grupo que também discutia orçamento e tributos. Na época, ele defendia a estatização de todo o sistema financeiro.

RECOLHIMENTO

Amigos dizem que Gushiken tinha poucos interesses fora da política. Um deles, porém, era muito forte: a atuação na comunidade Bahá'í, uma religião monoteísta fundada na Persia (atual Irã) no século 19 que não possui dogmas, rituais ou sacerdócio.

Seus seguidores acreditam na evolução da humanidade para uma civilização mundial que reunirá todos os credos e será orientada para a paz.

O outro assunto que lhe roubava da política era o câncer na região abdominal.

O problema grave foi detectado há mais de dez anos. Em 2002, Gushiken retirou dois terços do estômago numa operação. Uma infecção prolongou o tratamento e o deixou bastante debilitado.

O convite para coordenar a campanha petista daquele ano foi feito por Lula no próprio hospital, durante uma visita ao amigo internado. Naquela época, seu caso já era considerado grave.

O problema de saúde exigia tratamento contínuo e impunha restrições. Tinha que se alimentar de hora em hora e ir frequentemente ao banheiro.

Gushiken ainda sofreu um infarto em 2008. Com uma crise de angina, colocou um stent no coração.

A doença evoluía de forma lenta. Nos últimos anos, ele vivia recolhido em sua casa em Indaiatuba, no interior de São Paulo. Recebia só os amigos mais próximos e viajava de 15 em 15 dias para a capital para fazer tratamento.

Internado no hospital Sírio-Libanês nos últimos dias, demonstrava satisfação aos colegas de partido que iam visitá-lo para a despedida. Tinha dificuldade para falar. Quando conseguia, insistia em tratar de política, inclusive do julgamento do mensalão.

Gushiken deixou a mulher, dois filhos e uma filha. O primogênito está organizando um livro com depoimentos de amigos sobre a vida do pai.

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