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São 9h de uma adorável manhã outonal na sede da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern), nos arredores de Genebra. O sol brilha sobre uma ampla paisagem de campos e montanhas, e reluz nos lagos próximos. É um dia ideal para andar de bicicleta, caminhar ou fazer piquenique; praticamente qualquer coisa que não seja ficar fuçando em computadores no escuro.
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| O professor Simon Cox da Universidade de Southampton e seu filho (e assistente), James, com seu Raspberry Pi |
Mas aqui estou, de pé, no escuro, vendo as pessoas fuçarem em computadores. Rapazes mal-ajambrados retiram fios de sacolas plásticas e os encaixam na parte traseira de monitores de TV. Conectam teclados, instalam cartões SD, enfiam longos cabos em entradas USB. Uma fita crepe é passada sobre fios desgarrados, para mantê-los no lugar. De certa maneira, eu achava que o Cern, a coisa mais parecida que há no planeta com um laboratório de James Bond, seria mais sofisticado do que isso.
Mas não é o Cern que estamos conferindo. Estamos aqui para algo bem mais básico, e ainda mais interessante. Olhe mais de perto.
Você vai notar que perto de cada terminal há uma pequena placa verde de circuitos impressos. Ligeiramente maior do que um cartão de crédito, com cabos brotando de si qual membros retorcidos, ela parece uma aranha retangular. Na verdade, é um computador, febrilmente guiando e conectando todos os elementos disparatados ao seu redor para criar... bom, para criar qualquer coisa que o "geek" desejar. Digam oi, senhoras e senhores nerds, para o Raspberry Pi.
Trata-se de um computador programável, robusto, barato (cerca de R$ 80) e com baixo gasto de energia. É uma invenção britânica que começou a ser vendida em fevereiro deste ano, e que virou uma sensação das ciências, o equivalente informático a ingressos para o Glastonbury ou para os Rolling Stones: todo mundo quer, não só os fãs mais radicais.
Mesmo antes do lançamento, a demanda pelo Pi superava a oferta, e no dia em que os primeiros 10 mil foram disponibilizados todos os sites de distribuição travaram. O primeiro vídeo on-line da BBC sobre o Pi --uma prévia, antes mesmo de ele ser posto à venda-- foi visto mais de 800 mil vezes em questão de dias. Desde então, o RPi já vendeu quase 500 mil unidades, e tem tudo para chegar a 1 milhão até o Natal --movimento encabeçado por compradores da América do Sul e da China, que não se intimidaram com os custos de importação que deixam o RPi apenas meio barato, em vez de ser uma verdadeira pechincha.
Ele já foi usado para tirar fotos da Terra do espaço próximo, e de pássaros em quintais. E ele uniu a comunidade científica, dos professores primários aos físicos de partículas, num alegre entusiasmo, principalmente porque se espera que seu preço, tamanho, software e robustez (você supostamente pode enfiá-lo no bolso sem danificá-lo) atraiam as crianças, levando-as assim para o campo da programação de computadores.
Vamos ver, então? Das 9h às 17h, um incessante fluxo de crianças entra na sala pouco iluminada do Cern, procura um monitor livre e se senta diante dele. Elas notam um gatinho no canto superior direito da tela. Alguém --um adulto, outra criança-- lhes diz que é possível movimentar o gato se ele for programado para tal. E aí é isso que as crianças fazem.
Mickal, 6, é a mais charmosa propaganda do RPi que você poderá encontrar. "Olha o gato", diz ele. "Ele sabe dançar." Ele arrasta e solta comandos pela tela. O gato caminha e dá voltas em círculos. Depois, ele me mostra que pode acender e apagar umas luzinhas usando o RPi. "Aperte N e enter", diz ele. "Agora N, espaço e enter."
Nancy, 7, também está se divertindo. Ela deu um amigo para o gatinho: um cavalo que faz barulhos esquisitos, galopa na direção das paredes e ricocheteia. "Não temos computador na escola, só às vezes para a matemática. Também não brinco com computador em casa. Eu gosto de desenhar. E eu gosto disso."
Perto dali, Thomas, 7, também está tendo sua vez. Está se divertindo? "Eu gosto um pouquinho", diz ele. "É divertido, mas às vezes, quando você fica meio encalhado, fica chato, e você quer fazer outra coisa." Ele olha um pouco melancolicamente para a porta, e para o sol que brilha além dela.
BURBURINHO "GEEK"
Desde o lançamento do RPi, ele tem tido uma repercussão quase impecável na imprensa, e você precisaria ser um escriba bem mais cínico do que eu para zombar dos seus ideais. Seus desenvolvedores são seis cientistas altamente qualificados, instalados em Cambridge, e seus princípios têm pureza no coração. A Fundação Raspberry Pi é uma entidade beneficente cujo único objetivo é promover o estudo da ciência da computação nas escolas; o Raspberry Pi nasceu desse objetivo. Se a fundação fosse uma empresa com fins lucrativos, e não uma entidade beneficente, os seis originais já poderiam estar aposentados a esta altura.
O burburinho "geek" em torno do RPi --não esqueçamos que ele está por aí há menos de um ano-- é fenomenal. Atualmente, eventos como o do Cern são realizados por todo lado: Manchester, Machynlleth, Vale do Silício, Cingapura. São chamados de "Raspberry jams" (expressão que significa "geleia de framboesa", mas que também alude às "jam sessions" musicais), e não têm o aval oficial da fundação --são basicamente apenas pessoas locais se reunindo e trocando conhecimentos sobre o RPi.
Aqui no Cern, na fronteira franco-suíça, o organizador William Bell está preocupado com a falta de ciência da computação nas escolas locais (seus filhos frequentam uma escola primária francesa que, no momento, não tem um computador em funcionamento para o uso das crianças). Então esta "jam" envolve professores, crianças e pais. Outros eventos são para gente mais crescida, com conferências e demonstrações para pessoas que ficam de pé diante de telões, fazendo piadas em códigos de computação.
As "jams" são apenas um dos filhotes inspirados pelo RPi desde o seu lançamento. O importante no RPi é que, ao contrário da maioria dos computadores atuais, ele não vem empacotado com tudo o que você precisa. Para fazê-lo funcionar, você necessita de um teclado, um monitor, um cartão de memória SD, uma vasta gama de cabos... Então surgiram pacotes RPi, permitindo que você compre todos esses acessórios de uma só vez. E, se você não quiser programar o sistema operacional no cartão de memória, existem os cartões pré-programados. Se você não gosta da ideia de ele ficar se batendo por aí sem um gabinete, várias pessoas já desenvolveram esse tipo de proteção.
O que é ainda mais interessante: surgiram agora placas adicionáveis que ampliam a capacidade do Pi, facilitando seu uso para a computação física, e dando-lhe funções como operar motores, fazer lanternas, ou transformar seu boneco de Lego em um robô que se mexe de verdade. Essas placas incluem a Gertboard, desenvolvida por um integrante da Fundação Raspberry Pi (chamado Gert), e a Pi-Face, que é semelhante, só que ligeiramente mais fácil de usar (não requer soldagem), e que é cria de Andrew Robinson, da Universidade de Manchester.
Robinson, um homem simpático e divertido, me conta sobre a casinha para pássaros que alguns alunos seus projetaram usando um RPi e uma Pi-Face; a casinha tem um feixe de luz infravermelha, de modo que o RPi sabe quando um pássaro está entrando e saindo, e pode ativar uma câmera ou lhe enviar uma mensagem. Robinson também usa seu RPi fora do trabalho; no momento, ele tem um deles no centro de um espetáculo teatral. O RPi sincroniza as projeções interativas com a iluminação e o som, que respondem todos aos movimentos de dançarinos.
Que mais? A Universidade de Manchester está promovendo o Grande Concurso Britânico Raspberry Pi, no qual crianças desenvolvem algum uso interessante para o RPi; RPis e Pi-Faces estão sendo enviados para países em desenvolvimento, lugares como Bangalore e Quênia, onde o RPi causou sensação, mas é difícil de achar. "Não acho que o Pi irá mudar o mundo", diz Robinson. "Mas ele abriu coisas, e criou um entusiasmo em torno da programação que eu nunca vi antes."
Os criadores do RPi são de uma geração que brincou com computadores, e não em computadores. Seus primeiros consoles foram o BBC Micro, o Commodore 64, o Spectrum ZX: caixotes beges, com poder limitado, que ofereciam entretenimento limitado instalado de fábrica.
Para realmente se divertir, era preciso fazer gambiarras naquilo que seu computador era capaz de fazer: alterar parte da codificação e ver o que acontecia. Se você conseguisse isso, poderia levar essa habilidade de programação para qualquer outro computador. Mas, quando os computadores melhoraram e se tornaram mais poderosos, capazes de oferecer jogos melhores, aí eles se tornaram também mais difíceis de programar.
O aspecto da gambiarra se perdeu, e isso afetou levas de colegiais que deixaram de travar contato com a programação, embora tivessem passado a ter mais acesso a computadores, melhores consoles para jogos, e aulas de tecnologia da informação e computação.
Eben Upton, um homem animado e simpático (todos os envolvidos com o RPi), é um projetista de microchips para a Broadcom, e o principal designer do RPi. No começo, meados da década de 2000, ele era o encarregado da admissão de graduandos no curso de ciência da computação em Cambridge. Ele notou um grande número de desistências e, especialmente, uma queda na qualidade dos graduandos entre 1996, quando ele próprio se formou, e 2005.
"Os alunos simplesmente não sabiam programar, e isso era porque eles não haviam estado na presença de um equipamento programável", diz ele. "Não é tanto uma educação como uma coisa ambiental. Eu fui autodidata, assim como todos os meus amigos. Mas no mundo de dispositivos para o consumidor em que nos encontramos hoje, onde a maioria dos equipamentos são tablets, celulares, conversores de TV, consoles de games... São todas elas máquinas que você pode usar para consumir, mas a maioria delas não permite que você produza."
Todo mundo com quem falei sobre o RPi insiste no fato de que qualquer um é capaz de codificá-lo, independentemente de a pessoa ser boa de matemática ou não. Bell, no Cern, diz que é como fuçar numa moto. "Você leva tempo para desmontá-la e montá-la de novo. Só fazendo isso você vai entender como o motor funciona."
Upton define a programação como sendo "separar o problema em partes administráveis", e o RPi, quando você o liga, já tem duas linguagens de programação instaladas: Scratch, que é a básica, com o gato; e Python, mais sofisticada, mas que uma vez dominada leva você a praticamente qualquer linguagem de programação desejada. "O Pi não é só uma caixa mágica que faz coisas", diz Eben. "Você pode iniciar o Python, digitar seis letras e imediatamente você está em um ambiente de programação."
AS TRIBOS
Tudo isso soa incrível, e incrivelmente interessante. As crianças modernas adoram computadores, então por que não amariam programar? Bom... A característica mais identificável do gênio da informática é que ele (geralmente é ele) é um outro. Em "Skyfall", novo filme do agente James Bond, Q (Ben Wishaw) é uma graça, com seus óculos e sua franja despenteada, mas é basicamente o arrogante oposto do herói Bond. Q fica sentado numa sala escura olhando uma tela; Bond corre por aí atirando nas pessoas e dando uns amassos.
Essa divisão não é nova; está em cada escola aonde você vá. Os nerds ficam na sala de informática durante o intervalo, e fazem piadas obscuras; os bons de bola correm por aí acertando as coisas e tentando xavecar as meninas. Há outras tribos --os que se aglomeram na sala de artes, a galera da música alternativa--, mas me parece que, por mais admiráveis que sejam as intenções da fundação, eles vão ter dificuldades em convencer muitos adolescentes de que programar computadores seja algo para alguém que não é da turma dos "geeks". Mesmo que os RPis cheguem cedo até eles.
Eben admite que ele e seus compadres pensam bastante a respeito disso. Ele (como o resto da fundação) está ciente de que, até agora, cerca de 80% dos RPis foram vendidos "para geeks iguais a mim".
"Não queremos acabar entrincheirando todas as vantagens que já estão aí", diz ele. "Há uma torta de tamanho fixo, que consiste das pessoas brancas, homens, de classe média e boas em matemática. Digamos que a torta está dividida entre físicos de partículas, executivos de bancos de investimento e cientistas da computação, todas elas carreiras dominadas por pessoas brancas, homens, de classe média e boas em matemática. Se você não tomar cuidado, só estará mexendo nas divisões dentro dessa torta de pessoas. O que precisamos fazer é expandir a própria torta."
No seu trabalho do dia a dia, criando chips de computador na Broadcom, Upton insiste que não usa um volume imenso de matemática: "Meu trabalho é mais o de um artesão". E ele acha que enfatizar o elemento artesanal da programação ajudaria a aumentar essa torta que teima em não crescer --particularmente entre as meninas. O que a Fundação Raspberry Pi não quer fazer é o que ele chama de "pintar de rosa" --ou seja, tentar atrair as meninas de uma forma banal.
Há outro aspecto do crescimento da torta, acha ele, dentro do vasto setor de meninos adolescentes que adoram jogos de computador. "Há pilhas de meninos de 12 a 16 anos que adorariam dar o passo para o nível seguinte e realmente criar seus próprios jogos. Mas não há uma rota óbvia, e digo isso como alguém que montou uma empresa de jogos de computador assim que saiu da faculdade." Hoje em dia, ele diria para essa garotada que arrumasse um RPi, brincasse com ele por um par de anos e então levasse seu portfólio para uma empresa de games.
Outra coisa complicada no Raspberry Pi é ensinar. Já foi convincentemente provado que as aulas de tecnologia da informação e computação na década de 1990 praticamente só serviram para produzir alunos que dariam boas secretárias; a ênfase atual no on-line tampouco é útil. (Como diz Eben: "A habilidade não particularmente útil que os alunos possuem deixou de ser saber usar o PowerPoint para saber construir um site".) Mas como os professores podem ensinar os alunos a programar computadores, se eles próprios não sabem?
"É ridículo pedir aos professores para ensinar coisas sobre as quais não se sentem confiantes", concorda Eben. "Precisamos fazer os professores se sentirem confortáveis." No entanto, admite, se os professores forem treinados para serem ótimos programadores, vão largar o magistério para ganhar muito mais dinheiro. "Então, temos de encontrar uma forma de tornar esse troço passível de ser oferecido por não-especialistas." Para tal fim, a fundação --junto com muitas outras associações, como o Code Club-- tem estimulado engenheiros de computação a ajudarem professores entusiastas a montarem clubes para o pós-aula.
E os pais? Sou branca, mulher, de classe média e estudei matemática e mais matemática (não muito bem) no colégio: eu não teria nem ideia do que fazer se meu filho me trouxesse um problema de programação. Upton admite que, também aqui, o RPi não é perfeito, ainda.
"No momento, não podemos oferecer uma experiência educacional realmente satisfatória, num ambiente supervisionado, digamos, onde um adulto ou uma criança mais velha que realmente sabe de informática esteja assistindo uma criança pequena que não sabe. O verdadeiro desafio é atender a gente como você, pessoas que não são programadoras natas, capazes de responder a cada pergunta que a criança fizer sem nem pensar. O Pi precisa funcionar em um ambiente de fobia a computadores. Acho que é factível. E é absolutamente crucial."
O Raspberry Pi não é perfeito, mas essa é uma decisão tomada por seus criadores. Na medida do possível, o Pi é aberto: seu software é aberto, e sua atitude também --ao contrário, digamos, da perfeição suave e perfeita da Apple. Os criadores do RPi aceitam sugestões, e entendem que esse é um trabalho em progresso, que só pode avançar com as contribuições de outros entusiastas.
Upton me diz para esperar alguns meses antes de comprar um RPi, porque até lá a fundação irá reformular os softwares que vêm no pacote, especialmente o Scratch, para torná-los mais rápidos e mais estáveis. Eles já colocaram mais memória RAM no RPi, aumentando-a para 512 MB, e recentemente anunciaram que tudo nos softwares do RPi agora é de fonte aberta, o que significa que é tudo acessível, sem nada oculto. Além do mais --e isso me pareceu crucial-- o RPi passará a trazer materiais didáticos.
No fim das contas, porém, você pode conduzir as crianças até o RPi, mas não consegue fazer com que todos escrevam códigos. E tudo bem. Porque alguns vão ficar obcecados. Um dos muitíssimos vídeos on-line sobre o RPi foi feito por George, 9, que tem um blog chamado My Journey With Java ("minha jornada com o Java"). Ele o fez em agosto, e o mostra colocando os cabos no seu RPi e explicando qual vai onde. Ao conectar o cabo de energia, ele quebra uma parte prateada do Pi. Se George fosse meu filho, eu lhe daria uma cola Blu-Tak. George tuíta o vídeo para a Fundação Pi, e eles lhe respondem dizendo o que fazer.
Tradução de RODRIGO LEITE.