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Barrado na Bienal, Palatnik inventou máquina de pintar com luz e virou um dos grandes da arte mundial

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29/09/2013 | 02h30 | www1.folha.uol.com.br

ADRIANA KÜCHLER
DO RIO

Abraham tinha 12 anos quando pintou os primeiros quadros. A mãe do menino teve de esconder a identidade secreta do artista para conseguir vendê-los. Afinal, quem compraria as pinturas de um garoto daquela idade? A tática funcionou e, com o dinheiro arrecadado, ele comprou um violão, um acordeão e uma bicicleta, "que era inglesa e muito boa".

Nos 73 anos seguintes, Abraham Palatnik fez muitos outros quadros e obras de arte --sem precisar esconder a identidade para ser aceito pela clientela. Seu nome, junto com o aposto que sempre lhe persegue, de "pioneiro da arte cinética e tecnológica", está mais exposto no circuito de arte do que o de muito "novo artista sensação" por aí. Ele é um dos destaques da retrospectiva "30 x Bienal", em cartaz em São Paulo.

Ferreira Gullar escreve sobre "um dos mestres da arte contemporânea"

Mas mais interessante que uma exposição é uma visita à sua casa-galeria, tomada por obras em todos os cômodos. "A primeira invasão bárbara foi no lavabo", diz a filha, Elisa, 51, que também teve o seu ex-quarto invadido pela arte. Quadros ficam pendurados num varal no teto, como roupas estariam na sua casa ou na minha.

Confira imagens de obras do artista Abraham Palatnik

Logo na entrada, uma mesa sustenta 26 latas de tinta Suvinil, enquanto o piano apoia o desenho mirabolante de uma obra, que lembra um esboço do sistema solar. Quadros se empilham no canto da sala. Se enfileiram, sem respiro, nas paredes (o único respiro no meio de toda aquela arte, na verdade, é uma foto em que Abraham e sua mulher, Lea, se abraçam e se entreolham. Lea morreu no ano passado).

A cada porta aberta uma nova galeria de arte se revela. Papeizinhos com os dizeres "não pode, não" e "também não" avisam ao visitante que olhar pode, mas pegar em certas obras, tão tentadoras aos olhos, não é permitido.

Entre quadros, tintas e avisos, há uma cadeira, onde ele se senta. De camisa xadrez, calça jeans, tênis esportivo, cabelo todo branco e sobrancelha escapando por cima dos óculos, conta a história daquele menino lá do começo.

À TOA, PINTANDO PAISAGEM

Nascido em Natal, em 1928, filho de judeus russos, o pequeno Abraham passou parte da infância e da adolescência em Tel Aviv. Estudou mecânica, física, motores de explosão. E pintura.

Em 1947, voltou para o Brasil e decidiu criar um novo tipo de arte. "Eu achava que podia movimentar alguma coisa no espaço...", diz. "Não." O filho Beny, 59, interrompe. Palatnik está pulando uma parte importante da história. "Você estava aí à toa, só pintando paisagem, e então aconteceu a história que mudou tudo, lembra?"

Ele lembra, é claro. Tudo mudou quando o amigo e também artista Almir Mavignier o convidou a conhecer o Hospital Psiquiátrico Pedro 2º, no Engenho de Dentro, zona norte do Rio. Comandado pela doutora Nise da Silveira, psiquiatra alagoana que foi aluna de Carl Jung (1875-1961), o setor de terapia ocupacional do hospital ficou conhecido pelos métodos inovadores no tratamento psiquiátrico. Lá dentro, de artista e de louco todo mundo tinha um pouco.

"Quando conheci Palatnik, eu já trabalhava no centro psiquiátrico", conta Almir, 88, por email, da Alemanha, onde mora desde os anos 1950. "As obras feitas ali, pelos internos, como Emygdio de Barros [1895-1986], foram e são ainda de qualidade surpreendente. Lá, aprendi a ser tolerante com artistas que não trabalham como eu e a procurar minha personalidade dentro de mim", diz Almir.

As visitas causaram um choque em Palatnik. Durante um ano, "isso lá por 1948", continuou frequentando o lugar, junto com Almir. "Os internos tinham uma autenticidade incrível. Comecei a achar que jamais conseguiria fazer pinturas tão fortes, tão densas, tão bonitas, com tanta desenvoltura, quanto os doentes faziam", diz. "Foi uma pancada. Parei por um tempo."

No fim dos anos 1940, largou de vez o pincel e a pintura tradicional e, aí sim, começou a tentar movimentar alguma coisa no espaço. Juntou os conhecimentos de mecânica e física e inventou o cinecromático --uma espécie de caixa com lâmpadas coloridas, motores e cilindros que se movimentam, gerando imagens coloridas e hipnóticas. Na época, a invenção foi definida como uma "máquina apta a gerar obras de arte" ou uma "máquina de pintar".

O espectador não vê nada do mecanismo. Só o resultado, as projeções de luzes. Quando Mário Pedrosa, amigo de Abraham e um dos principais críticos de arte do país, viu a máquina, não piscou: "Manda isso pra Bienal!"

Fe Pinheiro
O
O artista Abraham Palatnik, 85, posa em sua casa na Urca, no Rio de Janeiro (RJ)

ARIGATÔ, JAPONESES!

Palatnik quis mandar para a Bienal. A Bienal é que não quis aceitar. Era a primeira edição do evento em São Paulo, em 1951, e a criação do jovem artista não se encaixava em nenhuma categoria. "Tinha uma estranheza. Os críticos não sabiam como classificar o meu trabalho." Não era pintura, nem escultura. Desenho não era. Tampouco gravura.

Mas, graças aos japoneses, que não conseguiram fazer suas obras atravessarem o oceano a tempo da exposição, Palatnik e seu cinecromático foram chamados de última hora para tapar o buraco. No fim, acabou premiado com uma menção honrosa da crítica internacional.

"Eles acharam que meu trabalho merecia ficar num museu", diz, como se ainda hoje estivesse surpreso com a notícia. Depois disso, foram outras tantas Bienais. De São Paulo e até de Veneza. Palatnik foi reconhecido como pioneiro da arte cinética internacional.

E seus cinecromáticos, tão difíceis de enquadrar, estão hoje, ao lado de pinturas, esculturas, desenhos e gravuras, nos acervos de museus como o MoMA, de Nova York, o Malba, de Buenos Aires, e em várias coleções particulares.

O da coleção de Rose e Alfredo Setubal, do banco Itaú, está em exposição na mostra "30 X Bienal", ao lado de uma irônica inscrição que diz que Palatnik esteve presente em várias Bienais --mas não na primeira.

Foi um cinecromático desses que encantou o pintor Miró (1893-1983). O surrealista catalão deu de cara com a obra na Bienal de Veneza, em 1964, e foi atrás de mais daquilo que lhe atraiu, na Suíça, onde acontecia uma mostra do brasileiro. Bobo que não era, Miró pediu uma poltrona ao entrar na exposição. "Ele queria ficar sentado, cômodo, admirando o meu trabalho", ri Palatnik. "Ficou lá parado um tempão. Foi o diretor que me contou..."

Beny Palatnik diz que Miró é um observador inteligente. "Com um minuto, você vê poucas possibilidades do aparelho cinecromático. O ideal é ficar admirando por uns dez minutos. Mas, como você nunca sabe como começa e quando acaba, pode ficar olhando por muito mais tempo."

Ferreira Gullar, poeta, crítico de arte e colunista da Folha, fazia parte do mesmo grupo de jovens artistas de Palatnik, que, nos anos 1950, frequentavam a casa do crítico Mário Pedrosa. Ele conta que um dia, depois de conhecer o aparelho cinecromático (e de beber umas doses a mais), Almir Mavignier começou a chorar no ombro de Lasar Segall: "A pintura acabou, Segall! A pintura acabou!"

REVOLUCIONÁRIO E SUBVERSIVO

Palatnik, que teve até uma fábrica de móveis, entre os anos 1950 e 1960, e inventou uma máquina de abrir coco, criou também os objetos cinéticos --esses, sem luz, se movem às vistas do público e lembram justamente obras de Miró e os móbiles do americano Alexander Calder (1898-1976).

Mas o artista não é chegado em comparações. Gosta menos ainda de classificar a sua arte. Termos como "processo de criação", "inspiração" e "conceito" não fazem parte de seu vocabulário. Perguntas que mencionem um desses termos ("Como é seu processo de criação?") são seguidas de um "Éeeeee..." prolongado --e cheio de tédio.

"Tá vendo? Ele não gosta mesmo [de conceituar sua arte]...", ri o filho Beny. "O que ele gosta é de trabalhar", reforça a filha, Elisa. O negócio é apelar para classificações alheias. Como a do poeta Murilo Mendes que, certa feita, escreveu que suas obras "são tangentes à pintura e ao cinema [...] constituindo-se em uma espécie de lanterna mágica do nosso tempo".

Quem também fala com propriedade e orgulho é Nara Roesler, sua galerista em São Paulo. "Palatnik é um dos artistas mais consagrados nacional e internacionalmente. É um revolucionário em sua produção. E também tem essa vasta história de subversão na arte", diz Nara. "O diferencial dele é a intelectualidade e a capacidade em dar à mecânica do objeto uma dimensão estética."

A galerista explica que suas obras são valorizadas não só pela relevância artística e por sua trajetória, mas pela escassez de peças disponíveis no mercado e pelas coleções em que se encontram. "É mais fácil encontrar obras dele em museus e coleções particulares da Europa do que no Brasil."

Um objeto cinético custa cerca de R$ 1,8 milhão. As pinturas com ripas de madeira, mais em conta, em torno de R$ 200 mil. É difícil dizer quanto custaria um cinecromático, já que não existe nenhum disponível no mercado.

No pouco que fala sobre o seu trabalho (sem bocejar), o artista gosta de repetir que seu objetivo é simples: "Disciplinar o caos". Parece uma missão difícil... "Não é difícil, não."

O caos é administrado por ele em diferentes tipos de suporte. Os mais recentes são pinturas feitas em ripas de madeira ou tiras de cartão, pintadas, cortadas e alternadas, que não se movem, mas, ainda assim, dão sensação de movimento.

Na sala da casa, ao lado dessas pinturas, está outra criação do artista-inventor, que ressalta ainda mais o aspecto lúdico do seu trabalho: um jogo de tabuleiro chamado Quadrado Perfeito. Segundo seus filhos, que tanto brincaram com o objeto, ele é uma espécie de "xadrez com objetivos estéticos".

Palatnik passa os dias criando. Às vezes, sai para comprar material. Outras, vai a vernissages. Diz que, se fosse jovem hoje, talvez se juntasse aos protestos pelas ruas da cidade, que classifica como "atitudes contemporâneas".

"Na época da ditadura, não protestei. Mas acho que as manifestações eram e são muito justas. Tinham a ver com os sentimentos dos jovens, que queriam mais liberdade. Os jovens têm sempre que manifestar seus interesses."

Um dia, foi convidado a dar uma palestra para esses jovens. "Nem lembro o que falei. Só sei que a professora dos meninos chorou."

Se tivesse que dar outra dessas conferências hoje, já sabe o que diria. "Cada um deve seguir sua intuição e procurar... Trabalhar. Os jovens de hoje ficam muito tempo pensando: 'O que eu faço? O que eu faço?' Não tem que pensar. Vai e faz."

Para ele, aos 85 anos, ainda falta algo a fazer? "Sempre falta." Quer parar? "De jeito nenhum." Ri quando pergunto como gostaria de ser lembrado. "Não tenho o mínimo interesse em deixar legado. O que eu deixo são as pinturas. E cada um que entenda do jeito que quiser."

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