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A Avenida Brasil da tevê por quatro escritores

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21/10/2012 | 08h00 | folha.uol.com.br

A pedido da "Ilustríssima", Chico Mattoso, Emilio Fraia, Joca Reiners Terron e Marcelino Freire fazem ficção inédita sobre a novela de João Emanuel Carneiro.

*

1. (CHICO MATTOSO)

Jorginho olhou outra vez pro bilhete, um pedaço de papel dobrado em dois, mas resistiu à tentação de ler. Pra quê a pressa? Jogado no banco de trás do táxi, ele experimentava os primeiros sintomas de uma ressaca violenta, que em algumas horas o faria se arrepender por ter misturado vinho com uísque. Tarde demais. Agora a cabeça começava a latejar, e Jorginho, embalado por doces lembranças, tentava colocar em ordem os acontecimentos da noite.

É sempre difícil recapitular uma festa. Ela é um organismo vivo, resistente a sistematizações. Não dava pra saber quem tinha precipitado as coisas, se a Louca Com Sotaque ou o Ruivo Esquerdista. Talvez a culpa fosse do Chato De Colete, que saltitava de lá pra cá empunhando um bandolim desafinado, ou do Bailarino Viscoso, que circulava pela casa tentando arrastar mulheres desavisadas para a pista de dança. O fato é que alguém, em algum momento, esbarrou em Jorginho, fazendo com que a taça de vinho que estava em sua mão entornasse todo seu conteúdo sobre o vestido da moça ao lado.

Jorginho ficou paralisado diante da pequena tragédia. A dona do vestido também. A festa zunia ao redor dos dois, mas por um momento eles ficaram ali, imóveis, tentando dar algum sentido ao que tinha acabado de acontecer. Do alto de sua colossal timidez, Jorginho cogitou a ideia de virar-se e sair correndo. Mas então a dona do vestido abriu um sorriso, que logo transformou-se em gargalhada. Aliviado, Jorginho riu também. Uma eletricidade estranha percorreu o espaço entre os dois, e ele sentiu que os pelos do seu braço se arrepiavam sem a sua permissão. A Louca Com Sotaque se aproximou e tentou estragar tudo, mas era tarde: com um gesto firme, a dona do vestido pegou Jorginho pela mão e o arrastou para a edícula, onde, no espaço diminuto entre uma samambaia e uma máquina de lavar, ele foi presenteado com os quinze minutos mais estupendos de sua curta e até então enfadonha passagem pelo planeta.

E com um pedaço de papel.

Um pedaço de papel. Entre todos os troféus que uma noite como aquela podia dar a alguém, aquele era certamente o mais valioso. Jorginho sabia que, no dia seguinte, a experiência da edícula perderia a força, diluída em meio a enjoos, enxaquecas e uma amnésia alcoólica de proporções inimagináveis. O pedaço de papel não era só a promessa de um futuro, mas também de um passado, a garantia de que, a partir de agora, sua vida ganhava sentido e graça. O táxi se aproximava de casa, e foi com um misto de ansiedade e alegria que Jorginho finalmente desdobrou e leu o bilhete. Mas ali só havia duas palavras:

"Avenida Brasil."

2. (EMILIO FRAIA)

Se estivesse em São Paulo ou no Rio, aquilo ainda poderia fazer algum sentido. Mas não ali, naquela cidade, no terceiro andar de um prédio sem aquecimento, o apartamento que dividia com dois outros estudantes, uma grega e um russo, não ali.

Abriu a máquina. Tirou meias, cuecas, uma calça, duas camisetas. Colocou a preta, amassada mesmo, levou o resto para o quarto. Tinha chegado há dois meses. Um conhecido brasileiro (amigo de um amigo de São Paulo) havia insistido, porque é preciso sair, ver gente, se enturmar, e Jorginho acabou indo à festa. Não conhecia ninguém, mas logo foi apresentado ao grupo de brasileiros --o ruivo, o cara de colete, a mulher que, apesar de "paulista de São Roque", exibia um sotaque alemão, afetado, orgulhoso. Não tinha boa impressão dos brasileiros residentes, mas agora ele mesmo era um brasileiro residente e, pensando depois, aquela noite teria se perdido se não fossem o bilhete, uma caneta azul, aquelas duas palavras, a caligrafia redonda, de criança. As coisas perdidas podem ser de natureza diversa. Armação de óculos, clipes, receita médica, meia, chave da casa. Uma noite.

Assim que terminou de amontoar as roupas na gaveta, decidiu pegar uma coca e ligar o computador. A ressaca ainda se enroscava, fazia Jorginho se arrastar com movimentos de aranha pela casa. Tinha comprado o laptop numa loja do centro porque antes de viajar um amigo disse que era mais negócio se livrar do velho e comprar um novo, na gringa. Se, por um lado, aquilo não era mentira, também não era verdade. Os preços não eram tão melhores, os modelos nem eram sensacionais. Clicou no arquivo da tradução. Numa outra janela, abriu o Facebook. Ia do texto, um artigo sobre os índios Jivaro, para o Facebook, depois fazia o caminho inverso, com a atenção flutuante, os olhos ardendo.

Ficou online no bate-papo. Entrou no álbum de uma amiga que postou uma foto de batom, mandando um beijo. Olhou todas as fotos do álbum. Havia uma mensagem não lida, de um primo, e um desconhecido reclamava das taxas cobradas pelo banco, há três anos, eles me cobram uma taxa de um cartão de crédito que não existe! Enquanto descia a barra de rolagem, tentava reconfigurar a noite anterior. Entrou na página do cara que o convidou para a festa. Vasculhou suas fotos e, um por um, os seus amigos. Se concentrou nos alemães.

Uma garota, ele tinha certeza, tinha estado na festa.

Foi multiplicando as abas, as janelas abertas. Reconheceu outra mulher. Na página dela, uma sequência de fotos de uma balada chamada Katerholzig, alguma coisa entre "gato lenhoso" e "ressaca dura de roer", o que ironicamente parecia fazer algum sentido ali, naquele momento. Fotos e mais fotos e legendas esquisitas e amigos marcados, e no meio deles, enquanto arrastava o mouse, deparou com as duas palavras, que agora já eram íntimas, dentro do bilhete dobrado, em cima da cômoda: "Avenida Brasil". Clicou. Não se tratava de uma avenida, não parecia ter a ver com o Brasil. Era um lugar. Um lugar.

3. (JOCA REINERS TERRON)

Não deixava de ser curioso que a boate "Avenida Brasil" ficasse em outra avenida, a North Americas Avenue, em pleno centro de El Paso, Texas. Havia ali um flagrante equívoco geográfico, mas em vez de se preocupar com isto, Jorginho deu uma talagada na garrafinha de bourbon, ajeitou o panamá e caminhou resoluto em direção aos leões-de-chácara que guardavam a entrada.

Ao analisar de perto as fuças mal encaradas dos dois armários, considerou que talvez ele também estivesse no lugar errado. O maior deles lhe pediu a senha. Num relance, Jorginho percebeu que não havia mais ninguém por ali. Meio desconsolado, estendeu o papel com o nome da boate e as portas se abriram. Do saguão até o bar ele contabilizou mais três ou quatro equívocos, desta vez de ordem decorativa: um pôster de ornitorrinco, uma luminária em forma de girafa e o obelisco. O de Buenos Aires, não o do Ibirapuera.

Jorginho estacou diante do obelisco e amaldiçoou o instante em que clicou "buscar" no Google. Na pista de dança não havia nenhuma dona com vestido sujo de vinho rebolando e chamando por ele. Aguçando o olhar, Jorginho percebeu que inclusive não existia bar, pista de dança ou mesmo música bate-estaca saindo das caixas de som. O lugar era uma boate de fachada.

Com alguns estalos, uns nichos surgiram nas paredes, de onde começaram a sair com movimentos mecânicos não de todo isentos de interrupções, gaiolas iluminadas. Eram feitas de aço inoxidável, e no interior de cada uma delas havia um animal vivo. Jorginho os reconheceu: desta vez eram animais amazônicos, um tamanduá-mirim, um mico leão dourado e uma ararinha azul. E na última gaiola havia um índio Jivaro de cócoras. Carregava expressão contrariada no rosto. Talvez sentisse dores devido à posição incômoda, pois a gaiola não era alta o bastante para que ficasse de pé.

Jorginho sorriu ao ver que o pajé Achuar, alvo de sua pesquisa de doutorado na selva peruana, também o reconhecia. O indígena era um eminente filósofo dedicado à linguística dos povos pré-amazônicos. Achuar levantou-se num só ímpeto, batendo a cabeça com força no teto da gaiola. Atordoado, o pajé começou a bradar em alemão com acento austríaco uma frase que persistiu na cabeça de Jorginho mesmo depois de ele ser atingido pela coronha da pistola vinda não se sabe de onde: "Sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar".

Ao acordar, Jorginho estava amarrado a uma cadeira tão previsível quanto desconfortável. Diante dele, a dona do vestido sujo de vinho. Havia mudado de roupa, o que não era exatamente um consolo. Continuava linda, mesmo sem a samambaia e a máquina de lavar. Aos seus pés se encontrava o cadáver do pajé Achuar. Estava completamente calado, o que era triste, mas a frase que gritara ainda girava na cabeça dolorida de Jorginho que, mesmo tonto, reconhecera o ponto 7 do Tractatus Logico-Philosophicus. Só não sabia agora o que fazer com a máxima de Wittgenstein. Filosofia não é uma coisa muito útil quando você se encontra nu e preso a uma cadeira. Melhor seria ter uma serra.

4. (MARCELINO FREIRE)

"Jorginho, Jorginho, Jorginho."

Jorginho preso. Todo bêbado fica com uma parte do corpo no fundo do copo, uma perna feito pedra, puxando para baixo, sem largar, o peso do pé.

Mas a cabeça, esta, sim, a única que parece voar. Por isso essa confusão ao redor. Essas nuvens, fumaças e vozes, velozes.

"Jorginho, Jorginho, Jorginho."

Chamava por ele a Louca Com Sotaque ou seria o Ruivo Esquerdista? Talvez o Chato De Colete, o Bailarino Viscoso. Todos sem rosto, sem nome. Sem história. O que puseram no meu gelo? Teria sido algum chá do pajé?

"Jorginho, Jorginho, Jorginho."

Foi abrindo uma das pálpebras, brega. Por cima dele, no alto, viu a festa toda querendo erguê-lo de volta. Sombras de gente, sobras. Por que não chamam logo um bombeiro? Sua garganta engolidora de fogo. O risco do álcool é este: o fogo.

"Jorginho, Jorginho, Jorginho."

Abriu mais uma pálpebra, podre de cansado. Era ela, viu, a dona do vestido cor de vinho --tão sexy, tão bonito! Quis pedir desculpas. Toda vez que ele bebe é essa algazarra, farra sem fim, essa falta de juízo. Nada a ver. Chegou até a imaginar que morava com estudantes estrangeiros. Não falava grego, muito menos russo. Nunca esteve no Texas, ora essa. Sequer saiu do lugar.

Por mais que dissesse "preciso ir", não ia.

Mesmo que a moça chamasse, o povo todo chamasse com a insistência de um guindaste, Jorginho caía.

"Leva ele para o banheiro."

O Chato De Colete foi o primeiro a chegar para ajudar. Por que veio ele em seu socorro e não o Bailarino Viscoso?

Lembrou-se: foi o Bailarino --que nada tinha de viscoso e, sim, tudo de bailarino-- quem o trouxe à balada Katerholzig. E agora o abandonou ali, é isto? Ou todo Chato De Colete é assim mesmo --se sente o melhor amigo dos bêbados, se acha superior a quem, como Jorginho, dá esse vexame. Da próxima vez não me chame, não me chame, não me chame.

"Jorginho, Jorginho, Jorginho."

Ligaram o chuveiro. As primeiras gotas que bateram no piso eram faíscas. As faíscas eram lavas. Tudo, dentro de Jorginho, em cima de Jorginho, ao lado de Jorginho, queimava.

Água, água, água.

Um banho. De gato lenhoso. Veio o Bailarino --que se chamava, na verdade, Ramiro-- à porta do box. Jorginho sorriu para ele com as pálpebras ébrias, abertas, felizes.

"Vamos para casa, Jorginho."

"Vam-vamos... Pe-pega o carro..."

"Não, querido, hoje nós vamos de táxi, viu?"

Mesmo que fosse assim tão perto a Avenida Brasil.

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