Prefeituras de PR e PE preparam parcerias público-privadas para lixo
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Na mesma semana em que o Google completa 15 anos de vida chegam os resultados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), feita pelo IBGE, relativa ao ano de 2012.
Na pesquisa, os resultados de sempre: entre porcentuais e índices que mostram avanços, flutuações e retrocessos fica sempre a certeza de que ainda há muito a fazer para que este país entre no Século 20. A realidade em que mais de 40% das casas ainda não tem rede de esgoto e que milhões de crianças ainda trabalham contrasta de forma tão evidente com o "espetáculo de crescimento" e com os brasileiros que fazem a festa no comércio em Nova York que chega a parecer uma ironia a ideia de uma potência tropical que tanto fascina os gringos que se arriscam em nossas metrópoles.
É certo que o país é grande e sofre problemas de infraestrutura que podem ser resolvidos com algum esforço e vontade política, deixando poucos rastros ou sequelas aparentes. São mazelas históricas, que ao custo de obras inúteis, privatizações espúrias e propinas variadas, um dia acabarão resolvidas. Essa constatação traz de volta a ideia tecnocrática da ditadura militar, que acreditava ser capaz de minimizar, por obra de engenharia, boa parte de nossas diferenças sociais.
O real problema que a pesquisa mostra é o fato, camuflado por emprego e renda crescentes, de que mais de metade da população não chegou ao ensino médio e de que 8,7% dos brasileiros não sabe ler ou escrever. É uma taxa que coloca o Brasil na periferia do mundo, próximo a países africanos dos quais a única notícia que chega é a da desgraça iminente. Os índices mais preocupantes estão na região Nordeste, que concentra mais da metade dos analfabetos do país. Em Alagoas, um em cada cinco habitantes não sabe ler ou escrever.
O problema é muito mais grave do que o seria no século passado. Em tempos digitais, o analfabetismo tira de suas vítimas a capacidade de compreender a Internet e boa parte dos aparelhos digitais.
Para quem não sabe ler, a rede mundial é tão inútil quanto um site escrito em Húngaro: as letras não fazem sentido, não há como saber aonde clicar nem como acessar qualquer tipo de conhecimento. Um analfabeto funcional, aquele com mais de 15 anos de idade e menos de 4 anos de estudo, está confinado ao século 20, sem Google nem Wikipédia. Até YouTube ou Facebook são quase impossíveis de se usar.
Mesmo entre os alfabetizados, a quantidade de gente que não conhece ou não acessa a rede é impressionante. Dados pesquisados pela consultoria Teleco mostram que o número de usuários de Internet no Brasil cresceu em quase 15 milhões de 2011 para 2012, boa parte destes via celular, já que desde 2010 temos mais do que um aparelho por habitante. Mesmo assim, cerca de metade do país ainda está desconectada.
Governantes adoram falar em baixas taxas de desemprego, mas que emprego é possível para quem não é capaz de acessar a rede? Já se foi o tempo em que estar conectado era, como falar inglês ou ter diploma universitário, uma curiosidade ou uma distinção. Hoje é necessidade.
Por mais que Cuba e Argentina nos entristeçam com suas crises, o analfabetismo nesses países é irrisório. Uma vez resolvida a questão política, a população pode, por conta própria, demandar o conhecimento que lhe foi negado pelo Estado, transformando-o.
Para nós, que acessamos a rede, o mundo sem ela é quase inimaginável. Não há escola mais acessível e melhor distribuída do que os mecanismos de busca, capazes de levar a páginas e vídeos que ensinam a trocar um courinho de torneira, a tocar guitarra, a cozinhar ou a configurar equipamentos. Não há reputação de empresa, político, produto ou serviço mais democrática do que a vinda pelas redes sociais.
A inteligência artificial de sistemas de geolocalização e tradução se tornou quase uma prótese cerebral, tão usada que muitas vezes não nos damos conta de que ela existe. Quem usa cartão de crédito em um supermercado acessou, sem se dar conta, sistemas financeiros e de logística sofisticadíssimos, cujos empregos de qualidade só estarão disponíveis aos que saibam usar, com alguma proficiência, a rede.
Aos outros sobra uma vida pacata, quase bovina, regida por qualquer bobagem dita na TV ou rádio, câmaras de eco dispostas a satisfazer uma audiência confinada à segunda classe, incapaz de fazer qualquer leitura crítica. Ou de demandar mudanças. É dessa massa que se alimentam as piores ideologias, seitas e outras forças que limitam qualquer progresso.
Luli Radfahrer é professor-doutor de Comunicação Digital da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP há 19 anos. Trabalha com internet desde 1994 e já foi diretor de algumas das maiores agências de publicidade do país. Hoje é consultor em inovação digital, com clientes no Brasil, EUA, Europa e Oriente Médio. Autor do livro Enciclopédia da Nuvem, em que analisa 550 ferramentas e serviços digitais para empresas. Mantém o blog www.luli.com.br, em que discute e analisa as principais tendências da tecnologia. Escreve a cada duas semanas na versão impressa de Tec e no site da Folha.